Entrevista: Um olhar para a obesidade infantil
Entrevista concedida ao Portal de Educação Física na íntegra – 2014
Ana Elizabeth Luz Guerra
Qual a importância do alimento na relação entre pais e filhos?
Ana Elizabeth Luz Guerra: A alimentação vai além de uma necessidade
biológica, pois possui também um valor simbólico. Ela possibilita que
haja uma vinculação entre pais e filhos na medida em que se configura
numa comunicação profunda entre eles que se inicia já nos primeiros
momentos se vida. Por exemplo, o bebê ao ser alimentado, recebe, além do
leite, o carinho, o toque que envolve, o calor e o cheiro do corpo dos
pais, o olhar que protege, a voz que embala. A fome, que inicialmente
despertou o choro pela primeira mamada, passa a ser acompanhada pelo
desejo de estar com o outro. Essa dinâmica segue por toda a vida que,
muitas vezes, passa a ser celebrada ao redor da comida. Cozinhar para um
filho, mesmo já adulto, pode significar um gesto de amor. Ao passo que o
filho, quando aceita e desfruta do alimento, simbolicamente, recebe o
amor de seus pais. Se recebo o alimento com prazer e o coloco dentro de
meu corpo, introjeto também o amor de quem o fez.
Sob uma ótica relacional, o alimento pode ser considerado, pela criança ou pelos pais, um substituto da relação?
Ana Elizabeth Luz Guerra: Sim. Há casos em que a família, por
exemplo, acaba superalimentando a criança para preencher uma falta na
relação, uma falta de tempo, falta de afeto. Os pais, às vezes, se
sentem culpados por alguma motivo e equacionam uma lógica em que nada
pode faltar e, dessa forma, acabam por encher a criança de brinquedos,
de comida, de permissividade. Ao superalimentarem a criança ou
simplesmente apresentarem dificuldades em estabelecer hábitos
alimentares saudáveis, dar limites, frustrar, alguns pais, por exemplo,
permitem que a criança faça uso de guloseimas sem muitas restrições,
coma na frente da televisão, se acostume a receber sempre na boca a
comida mesmo que em idade avançada, entre outros comportamentos.
A superproteção pode ser a causa da falta de limites na escolha do alimento pela criança?
Ana Elizabeth Luz Guerra: Tanto a falta quanto o excesso de proteção
são prejudiciais ao bom desenvolvimento da criança, pois a mantêm numa
relação de dependência afetiva. Superproteger pode implicar dificuldade
por parte da família em frustrar os filhos também na hora de escolher a
comida. Dessa forma a criança termina por decidir o que vai comer e,
muitas vezes, desenvolve hábitos alimentares não saudáveis.
Os pais têm consciência da obesidade do filho e das limitações e doenças que podem causar?
Ana Elizabeth Luz Guerra: Há famílias que se orgulham de ter um filho
gordinho pois, para elas, isso é sinal de saúde, de beleza, de fartura.
Outras, porém, têm consciência do prejuízo que os maus hábitos
alimentares podem gerar, no entanto, a dificuldade em estabelecer uma
relação mais saudável com ato de alimentar seus filhos é tanta que,
algumas vezes, é necessário uma ajuda profissional. Há ainda pais que
culpabilizam a criança por estar obesa e outros, que por terem a mesma
relação com a comida, não conseguem fazer muito para ajudá-la.
Quais são as principais limitações psicomotoras da criança obesa?
Ana Elizabeth Luz Guerra: Em geral as crianças obesas têm limitações
funcionais do movimento. Além disso é comum apresentarem autoestima
baixa o que faz com que sintam-se menos capazes de realizar certos
movimentos e, muitas vezes, nem tentam realizá-los por vergonha e medo
de se exporem.
Como mudar essa relação da criança com a comida e com a família?
Ana Elizabeth Luz Guerra: Tudo começa pelo exemplo dos pais. A
alimentação familiar é fundamental para a criança adquira bons hábitos. A
relação dos pais com a comida e a consciência de que podem estar
contribuindo positivamente ou negativamente para a saúde do filho deve
ser investigada. Dependendo do caso e do grau, a família vai necessitar
de orientações específicas de um médico, de um nutricionista e, algumas
vezes, é necessário acompanhamento terapêutico para que a família possa
ressignificar sua relação com a comida e com o ato de alimentar seus
filhos. A criança obesa, muitas vezes, se encontra fragilizada e, além
dos cuidados com a saúde física, pode ser necessária uma intervenção
terapêutica para que ela encontre o lugar de sujeito nessa relação, ou
seja, encontre-se com a verdade do seu desejo, que deve estar em
consonância consigo e não com o que imagina que os outros esperam dela.
A criança que relaciona as emoções aos alimentos vai carregar
isso consigo pro resto da vida? Ela corre o risco de transmitir isso
aos seus filhos também?
Ana Elizabeth Luz Guerra: As experiências que vivemos geram marcas
que ficam inscritas em nosso psiquismo e nos acompanham pela vida
influenciando as modalidades de relação que estabelecemos. Com certeza
corre-se o risco de uma repetição.
Há algo de importante ou pertinente a comentar sobre o tema e que ainda não abordamos?
Ana Elizabeth Luz Guerra: Em meu trabalho clínico com a Psicomotricidade Relacional¹ percebo
um aumento significativo de crianças com dificuldades emocionais
relacionadas à obesidade. A imagem que tem si, muitas vezes distorcida,
contribui para um quadro de isolamento em que ela nega o que mais deseja
que é interagir com os demais. Dessa forma é importante que a família,
a escola e todos que se relacionam com a criança estejam atentos aos
seus comportamentos sintomáticos, pois são geral mensagens endereçadas
aos outros e que ela, sozinha, não consegue decifrar.
¹A Psicomotricidade Relacional é
uma “práxis” preventiva e terapêutica que enfatiza a motricidade humana
e sua relação de reciprocidade com o psiquismo. Prioriza o movimento
espontâneo, a linguagem analógica, a comunicação tônica, o brincar
espontâneo e o jogo simbólico, dentro de um contexto grupal, para que o
sujeito possa contar de si pelo viés do discurso corporal, contatar com
seu desejo, elaborar conflitos e desenvolver-se na busca de um viver
melhor e mais saudável. Nessa metodologia, o corpo-sujeito do
psicomotricista relacional está sobremaneira implicado nas intervenções
psicomotoras (GUERRA, 2012).
Ana Elizabeth Luz Guerra